Ele foi pai aos 17 anos, ídolo do futebol aos 24 e avô aos 33! Hoje, aos
46 anos, declara admiração por mulheres com iniciativa e independentes.
Melissa Lenz
17/9/2011
Foto: Cristina Skreiberg
Em campo, ele foi um
dos jogadores mais cobiçados do mundo (e pela torcida feminina então, nem se
fala!). Mas a sua grandeza não ficou no passado junto com a carreira no
futebol. Em uma conversa franca com o Tempo de Mulher, o tímido e
sensível Raí, 46, revisitou sua infância e falou de escrita,
filosofia, política, futebol, sonhos, casamento - e, claro, mulheres...
Tempo de Mulher - Pra começar, você escreveu um livro sobre quatro
crianças que descobrem que podem fazer diferença no mundo.
Raí - Na verdade são personagens de uma
turma que começa a perceber que não existe cada um no seu mundo, que tudo é uma
coisa só. É aquela fase em que a criança descobre a interdependência entre as
pessoas, que todos são um, e que temos que lutar para melhorar o mundo. É por
isso que se chama Turma do Infinito [lançado recentemente pela editora Cosac
Naify].
TDM - Que paralelo isso tem com o Raí quando criança?
Raí - É muito difícil, né?! (risos) Eu
acho que tem uma coisa que eu ainda guardo, principalmente com meus amigos mais
íntimos, que é esse lado infantil e brincalhão. Eu sinto um prazer, não só
emoção, em pequenas coisas, como andar de bicicleta, por exemplo. Tem algo
muito vivo dentro de mim, e acho que está muito presente ali no livro. Fui
muito privilegiado por ter tido os meus pais e irmãos. Sou o filho caçula de
seis, então fui cercado de muito carinho e atenção. Acho que esse privilégio de
ter tido pais carinhosos, atenciosos e uma boa estrutura familiar me deu uma
segurança para crescer na vida. E é isso que quero passar também pras outras
pessoas, questões como "O que existe?", "Só tem o meu
mundo?", "Qual o sentido das relações de amizade?", são
questionamentos que a princípio despertam uma insegurança, e acho que essa
segurança que tive crescendo ao lado dos meus pais, eu tento retratar também
ali, a busca de segurança por meio da amizade, digamos assim.
TDM - E você acha que ter escrito um livro
teve a ver com o fato de você ter mergulhado na filosofia?
Raí - Com certeza. Eu acho que isso atiçou.
Tive a ideia na época que fiz alguns cursos de Filosofia, e ela não saía da
minha cabeça, fiquei refletindo. Então tentei adaptar essas minhas reflexões,
as coisas que acredito na vida, para uma linguagem infantil. Aí que veio a
ideia do livro. Realmente, o contato com a filosofia me influenciou para seguir
essa linha da história. Não é um livro de filosofia, mas tem aquela pitada de
instigar, de chegar a uma reflexão, a questionamentos. São curiosidades sobre
nós mesmos...
TDM - Você acha que você sempre foi um cara
indagador? Porque você foi muito precoce: pai aos 17, avô aos 33, ídolo do
futebol aos 24...
Raí - Eu acho que fui muito... (pensativo).
Acho que teve muita coisa instintiva e meu destino foi reagindo a isso. Então
teve alguns acontecimentos, meio que tropeços do destino... Mas sempre foi uma
coisa muito intuitiva, eu sempre fui uma pessoa muito tímida. Acho que o fato
de ser questionador da vida assim com tudo vem dessa coisa de eu mais ouvir do
que falar. Agora eu estou mais falador, mas antes era mais observador. As
pessoas sempre achavam que eu era distraído. Eu sou distraído, mas estou sempre
observando. O casamento [com Cristina Bellissimo] não foi programado cedo. O
fato de eu ter casado é que me levou a levar a carreira do futebol a sério.
TDM - E sobre a carreira no futebol, será que ela teria influenciado o
término do seu casamento?
Raí - Não, não... Eu acho que pra quem
casou com 17 anos de idade, ficar 15 anos casado não pode dizer que terminou
tudo errado, né? É raríssimo alguém casar aos 17 e ficar junto durante 15 anos!
A gente é superamigo ainda. Considero meu casamento - começo, meio e fim - como
uma união que deu certo. Terminou o relacionamento homem-mulher, que não deu
mais certo, mas com certeza a carreira teve uma influência positiva no
casamento, e o casamento, no final das contas, teve uma influência positiva
também na carreira. Eu tive um começo da vida adulta com 20 anos, uma juventude
mais caseira, e pra minha carreira eu acho que acabou sendo bom.
TDM - E se tornou avô aos 33! Todo mundo falou disso, mas como foi que
você se sentiu?
Raí - É, foi muito difícil, na época... Mas
eu fui pai adolescente, minha filha [Emanuella] foi mãe adolescente, e
realmente a gente tentou, na medida do possível, dar uma estrutura pra ela e
transformar aquela situação em algo positivo. E acho que ela sentiu que aquilo
lhe trouxe muita dificuldade, mas a coisa positiva é a vida que está aí, que é
a Naira, né? E isso é muito gostoso!
TDM - O que você elegeria, neste exato instante, como os nelhores
momentos da sua vida?
Raí - Minhas filhas [Emanuella, Raíssa e
Noáh]. Eu sou um cara que não tem a necessidade de se casar de novo porque vivo
muito a família, mesmo não morando com a mãe das minhas filhas, eu sou muito
próximo a elas. É legal ter um filho quando se está com 18, depois com 23, e
depois com 40. Eu curti o nascimento das três e fiz questão de assistir a cada
parto. Também foi muito importante o primeiro campeonato mundial pelo São Paulo
[Copa Europeia/Sul-Americana, 1992], ter conseguido aquele título inédito pro
clube. A minha passagem por Paris [onde ele jogou por 5 anos no Paris
Saint-Germain] foi uma coisa de sonho. E foi engraçado porque, um ano antes
de ir [ele foi em 1993], fui jogar um jogo amistoso pela Seleção e encontrei
dois jogadores, Valdo e Ricardo Gomes, hoje treinador do Vasco. Fiquei com uma
inveja boa quando eles me contaram que estavam indo a Paris jogar em um certo
clube [Paris Saint-Germain], que era um projeto bom. Falei assim pra eles:
"Puta, que sacanagem, né? Além de jogarem bola, os caras vão jogar em
Paris! Que coisa né?". Sabe aquela inveja, do tipo: "Puta, eu não
tenho essa sorte!", aquela coisa? E, meio ano depois, recebi a proposta do
Paris Saint-Germain. Então coloco as minhas filhas, os títulos mundiais do São
Paulo e da Seleção representando o sucesso da carreira, e a ida a Paris,
como as dádivas da minha vida.
TDM - Você ainda tem uma identificação forte com Paris, certo?
Raí - Tive desde pequeno. É aquela coisa de
ir pra tal lugar e parecer que você já conhece, que já viveu ali... A minha
filha [Raíssa] se formou em artes lá. E ela tinha vivido antes com a gente
naquela cidade, durante o início da faculdade. Agora ela terminou, está
estagiando, então é uma história que não acabou ainda. Eu tenho meu lado
brasileiro e o meu lado francês. Eu sou de duas nacionalidades, de fato. Não de
passaporte, mas de alma. E os franceses quando pensam em Brasil, lembram de
mim, e as pessoas que conheço na França, também se lembram da minha história.
Então ficou essa marca.
TDM - Que paralelo você faria entre as mulheres francesas e as
brasileiras?
Raí - Eu diria que a francesa é muito
charmosa, elas tendem a serem mais charmosas, na média, né? E a brasileira é
mais sensual, exótica, e eu gosto da beleza exótica das misturas.
TDM - Você namorou mais francesas ou brasileiras, Raí?
Raí - Ah, brasileiras! Na França, até por
causa das diferenças culturais, eu nunca consegui investir em relacionamentos
longos.
TDM - Que diferenças são essas?
Raí - Normalmente os franceses
são mais sistemáticos, mais ranzinzas, digamos assim, com detalhes. E a gente é
mais descolado, né? Claro que tem brasileiras ranzinzas também, mas na média, é
mais tranquilo.
TDM - E os franceses, geralmente, levam a fama de chatos (risos)...
Raí - É, eles têm essa fama, principalmente
os parisienses! Mas tenho muitos amigos lá e pouquíssimos deles são chatos. Mas
os que são, são os mais chatos do mundo! (risos) Nem os próprios franceses os
aguentam! Tem muita gente que sai, volta pra lá e não tem paciência para
algumas coisas. Então vêm pra cá, passam um tempo e descobrem que conseguem se
livrar de algumas manias.
TDM - Você chegou ao Brasil com muitas manias?
Raí - Manias francesas? Não sei dizer. Acho que
manias não, porque nunca perdi esse meu jeito. Em nenhum momento pensei em
morar lá, sou muito brasileiro. Creio que, apesar de ter aproveitado, me jogado
na cultura francesa, sempre pensei em voltar. Tem brasileiro que não pensa
assim. É difícil, mas tem. Eu voltei porque fiquei 5 anos e deu. E muito da
visão social deles, da busca incansável pela justiça social, é uma coisa que
contagia. Então a minha filha estudava na mesma escola da filha da minha
empregada, que também era brasileira. Elas iam ao mesmo médico. Isso é justiça
social, e eles vivem essa busca de liberdade, igualdade, fraternidade. São
valores que eles buscam no dia a dia, historicamente. Então isso me influenciou
bastante na minha visão de mundo.
TDM - Você está namorando hoje?
Raí - Não, tô sozinho. Mas vou pedir para
não dar muita ênfase nisso.
TDM - E como você vê a nova mulher brasileira? Qual é a sua visão geral
sobre as mulheres de hoje?
Raí - Eu acho interessante esse movimento
da postura da nova mulher, que é uma coisa que muitas vezes assusta
os homens. Mas eu acho superinstigante, e admiro muito mulher com iniciativa,
independente. Eu acho mais fácil de lidar, é o tipo de comportamento que me
atrai, que eu admiro mais.
TDM - Quando você sai à noite, é mais cercado por homens, mulheres, ou
ambos? (risos)
Raí - Eu acho que, "quando
acontece", são mais mulheres! E talvez por eu passar a imagem de ser um
cara mais sério do que às vezes sou e tal, bota uma distância que me ajuda, né?
TDM - Como você definiria seu momento atual de vida?
Raí - É um ano de muita realização, de
inspiração. Acho que estou muito criativo, com novas ideias, até para os
projetos que já existem. Eu chamaria de "momento inspirado". Estou em
paz comigo mesmo e conseguindo realizar coisas. Porque você pode estar num
momento inspirado sem conseguir concretizar, né? E acho que eu tô num momento
de... maturidade, será que é isso? Quando você consegue achar os caminhos para
realizar algo, mesmo que demore o tempo certo, sabe? É isso: estou inspirado,
criativo e com realizações que só me motivam a buscar outras.
TDM - Você sente uma certa inquietude, mesmo se sentindo realizado em
todos os seus projetos?
Raí - É... Inquietação é uma coisa natural
minha. Talvez por causa da carreira de atleta, por se tratar de utilidade
pública, lidar com o público, estádio, essas coisas, você se acostuma com
emoções fortes, então isso acaba te viciando em desafios. Você não vai acabar a
carreira e ter uma vida calma, não consegue mais! Sempre fui uma pessoa com
muitas ideias, e gosto de concretizá-las. O livro, por exemplo, foi uma que
poderia ter passado batida, mas realizá-la me dá muito prazer, me satisfaz. Eu
estava pensando justamente sobre isso essa semana. Tem dias que eu falo assim: "Puta,
tá faltando alguma coisa, não sei o quê". Mas ao mesmo tempo tem um monte
de dias que me sinto realizando coisas que me satisfazem completamente, e é a
maior parte do tempo. Além da Fundação Gol de Letra [ONG
fundada por ele e o ex-jogador e técnico Leonardo, que é reconhecida pela
UNESCO como modelo mundial no apoio às crianças em situação de vulnerabilidade
social], da Turma do infinito, também faço parte de outra
instituição,Atletas pela Cidadania. É uma associação de atletas que se
juntou pra defender causas sociais por meio de ações políticas, para vigiar e
mudar a lei, mobilizar pessoas, cobrar do poder público o que é dever, mas não
é bem feito. Então isso tudo me satisfaz muito, sabe? Poder sentir que você
está ajudando a transformar, a melhorar o seu meio, ajudar as pessoas. Quando
passa uma semana e eu vejo que as coisas não evoluíram, aí eu fico mal. São
projetos ideológicos e pessoais. E se posso dizer uma coisa que me faz falta é
de estudar mais. Eu fiz curso de Filosofia, eu fiz curso de mitologia.
TDM - No que a filosofia mais te ajuda?
Raí - Olha, a filosofia me ajuda a pensar a
vida, a pensar o mundo, e me deixa motivado para a vida. Porque se for pensar
mesmo nela, eu não sei de onde vim, nem pra onde vou... E a filosofia ajuda a
fazer esse exercício: buscar uma razão pra minha vida.
TDM - Depois de ter chegado onde quis no futebol, ficou algum tipo de
vazio? Você é viciado em desafios, poderia dizer que esses projetos sociais
seriam algum efeito pós-campo?
Raí - O que vem do campo é uma coisa
intensa, né? Mas acho que essa coisa de se envolver em projetos sociais é uma
coisa minha, que vem de casa, da preocupação social, é algo que vem de família.
Mas esse negócio de querer participar de várias coisas, é possível que seja,
sim, um efeito do futebol. Eu faço por uma necessidade...
TDM - E pra onde vai a sua rebeldia? Você descarrega no rock? (risos)
Raí - (risos) Onde eu descarrego? Depois da
minha carreira eu percebi que o futebol, o esporte em geral, é uma maneira mais
saudável de descarregar a energia, a angústia... Futebol tem contato, né? É uma
maneira com regras de você poder ser bruto, poder ser bárbaro, poder se jogar.
Quando eu tava jogando pra mim era natural e eu não via esse lado. Mas quando
parei, senti falta de ter um lugar pra descarregar. Hoje continuo no esporte,
na atividade física, e quando eu estou meio assim, levanto, vou fazer
ginástica, tomo um banho... Continua sendo uma maneira. Mas quando tem uma
rebeldia ou uma indignação sobre uma injustiça social qualquer, aí eu tento
agir por meio de meus projetos sociais.
TDM - Sua história renderia uma linda biografia...
Raí - Tem um projeto de biografia sobre a minha
família que já está em produção. A minha parte já foi filmada, agora estão
fazendo uma rodada de entrevistas com a minha mãe. Você diz que a minha vida
daria uma bela biografia, mas do meu pai [Raimundo] muito mais! Ele foi um
autodidata...
Fonte: Blog Tempo de Mulher ( Ana Paula Padrão)
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