Em 1978, centenas de indígenas e camponeses criavam o Comité de Unidad Campesina (CUC); objetivo era construir a unidade das diversas lutas camponesas que ocorriam no país
Fabio Tomaz,
da Ciudad de Guatemala
No Dia Internacional da Luta Camponesa (17 de abril) desse ano, em frente ao Palácio Nacional na capital da Guatemala, centenas de indígenas e camponeses celebraram os 35 anos do Comité de Unidad Campesina (CUC). Embora a data do aniversário da organização seja 15 de Abril, a data escolhida em solidariedade às lutas camponesas em todo o mundo, principalmente para relembrar o Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no Brasil em 1996 e exigir justiça e punição aos responsáveis.
Cabeça clara, coração solidário e punho combativo
No dia 15 de Abril de 1978, camponeses indígenas e mestiços da Guatemala criavam CUC. O objetivo era construir a unidade das diversas lutas camponesas que ocorriam no país, como forma de avançar nas demandas populares do campo e organizar a resistência camponesa frente as violações de direitos humanos e massacres perpetrados pelo exército guatemalteco.
Durante o surgimento do CUC, a Guatemala estava em plena guerra civil, onde se enfrentavam o exército guatemalteco (financiado e treinado pelos EUA e Israel) e as forças guerrilheiras do EGP (Ejército Guerrillero de los Pobres), FAR (Fuerzas Armadas Revolucionarias), ORPA (Organización del Pueblo en Armas) e PGT (Partido Guatemalteco del Trabajo). O exército utilizava a Política de Terra Arrasada, com a estratégia de “tirar a água do peixe”, ou seja, exterminar qualquer comunidade que apoiasse os movimentos insurgentes.
A primeira aparição pública do CUC foi em 1º de Maio de 1978. Milhares de camponeses e indígenas saíram às ruas do país apresentando suas demandas, seus princípios e sua disposição de luta, com a palavra de ordem “Cabeça Clara, Coração Solidário e Punho Combativo”.
Nos anos 80, quando todas as forças insurgentes se unificaram e criaram a URNG (Unión Revolucionaria Nacional Guatemalteca), a repressão e os massacres por parte do exército aumentaram, principalmente sob o governo do general Ríos Montt.
Entre suas ações, o CUC organizou a Grande Greve da Costa Sul, com mais de 80 mil trabalhadores paralisados, exigindo seus direitos. É durante esse período que se dá o genocídio na Guatemala, com centenas de comunidades exterminadas, mais de 250 mil assassinatos e mais de 1 milhão de pessoas expulsas de suas terras. O CUC foi uma organização central na defesa dos diretos camponeses e indígenas, denunciando os massacres e organizando a autodefesa das comunidades. E por causa dessa luta, foi perseguido. Muitos dirigentes e militantes foram assassinados. Outros tiveram que sair o país e viver no exílio.
Em 1985, desde uma reunião no México, o CUC se reorganiza e se reestrutura frente a política genocídio do governo. Sai a público outra vez em 1º de Maio de 1987, integrando suas bases a Unidad de Accíon Sindical y Popular (UASP). As principais demandas são devolução das terras roubadas pelos militares, a desmilitarização das comunidades, o fim o recrutamento forçado de jovens e crianças e a dissolução das Patrullas de Autodefensa Civil (PAC).
Anos 90 e a perspectiva da paz
No início década de 90, o CUC participa ativamente na Campanha Continental “500 Anos de Resistência Indígena, Negra e Popular”. Participa também da criação da Via Campesina e da Coordenadora Latinoamericana de Organizações do Campo (CLOC).
Em nível nacional, o CUC contribuiu para o surgimento de outras organizações camponesas, indígenas, de mulheres, de desalojados, etc. Também contribuiu para criação de diversas coordenações, como Majawil Q´ij, COPMAGUA, Nukuj Ajpop e CNOC, fortalecendo a unidade das lutas populares guatemaltecas.
Participou dos debates das negociações de paz, através da Assembleia da Sociedade Civil, construindo propostas de uma institucionalidade que ajudasse a concretizar os acordos de identidade e direitos dos povos indígenas e a solucionar a situação agrária criada pelos 500 anos de colonização e pela guerra. Em 1996, são firmados os Acordos de Paz na Guatemala, pondo fim a 36 anos de guerra civil.
Porém, com a assinatura do Tratado de Livre Comércio (TLC) com os EUA, em abril de 2005, as medidas que poderiam solucionar os problemas indígenas e camponeses previstas pelos Acordos de Paz são abandonadas pelos governos.
A luta continua
Desde que o ex-general Otto Pérez Molina assumiu a presidência da Guatemala, em janeiro de 2012, um grupo de militares ligados à repressão dos anos 80 ocupam importantes postos no governo. O próprio Pérez Molina é acusado de ser um dos responsáveis pelos Massacres em Nejab. Neste contexto, o CUC vem sendo alvo de inúmeras perseguições. O processo de criminalização e repressão atualmente tem o CUC como principal alvo. Os assassinatos e sequestro de líderes populares aumenta dia após dia.
Mesmo diante desse quadro, o CUC segue em sua luta contra os megaprojetos de mineração e a expansão do agronegócio na Guatemala, que afeta centenas de comunidades e milhares de indígenas e camponeses. A teimosia e a rebeldia do CUC segue assustando a classe dominante guatemalteca, com suas ocupações, bloqueios de rodovias e denúncias frente ao atual modelo econômico da Guatemala.
A história do CUC se mescla com a história do povo guatemalteco. Os milhões de indígenas maias da Guatemala (Kaqchikeles, Tz'utujiles, Pocomames, Ch'orti'es, Uspantekos, Sipakapenses, K'iche's, Mames, Chuj's, Akatecos, Awacatecos, Sakapultecos, Chalchitecos, K'eekchies, K'anjob'ales, Ixiles, Achi'es, Tektiteko e outros) somam-se aos Xincas, Garífunas e mestiços nas lutas populares. E o CUC segue sendo uma referência para essas e outras lutas na Guatemala.
Em seus 35 anos, o CUC representa a resistência, a luta e as conquistas dos povos da Guatemala. Mas ainda há muito o que fazer diante do objetivo principal do CUC: "Arrancar de raíz la injusticia y el sistema opresor".
(Foto: Ricardo Busquets)
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Fonte: Brasil de Fato
Postado por Cristina Rastafári
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