Gonzagão & Gonzaguinha versus Vampiros e 007


Filme sobre o “rei do Baião” enfrenta concorrência de blockbusters dos EUA
Maria do Rosário Caetano
de São Paulo (SP)

   
   
Cena do filme Gonzaga – De Pai Pra Filho, que estreia nesta sexta-feira (26)
Foto: Reprodução
Breno Silveira está preparado para o maior desafio de sua carreira cinematográfica: enfrentar, com , dois concorrentes de peso: os vampiros da série Crepúsculo e o agente 007, que recebeu da Rainha “licença para matar”. Os três filmes chegam aos cinemas nesta mesma temporada.
O quarto longa-metragem de Breno – Gonzaga de Pai para Filho – estreia nesta sexta-feira, dia 26, em todo o país. Uma pergunta cerca seu lançamento: o filme alcançará bilheteria similar à de Tropa de Elite 2, que vendeu mais de 11 milhões de ingressos?
Breno diz que se dará por “muito satisfeito” se o filme fizer público similar ao de seu longa de estreia, Dois Filhos de Francisco (mais de 5 milhões de ingressos). “Vamos enfrentar dois concorrentes realmente muito poderosos, mas acreditamos na força de nossos personagens”.

Gonzaga de Pai para Filho mostra as difíceis relações afetivas entre o sanfoneiro Luiz Gonzaga, que se vivo fosse completaria cem anos em dezembro, e seu filho, Gonzaguinha, morto num acidente de carro, menos de dois anos depois da perda do pai. Gonzaga despediu-se dos fãs em 1989, aos 76 anos, consagrado como o “rei do Baião”. Gonzaguinha morreu em 1991, aos 46 anos, também consagrado como um dos nomes da linha de frente da MPB.
O novo longa de Breno Silveira dispõe de trunfos poderosos. A começar pela tumultuada origem de Luiz Gonzaga do Nascimento Jr (1945-1991). Embora registrado por Gonzagão, Luizinho não é seu filho biológico. Biógrafos do Rei do Baião, em especial a francesa Dominique Dreyffus, confirmaram que Gonzagão era estéril. Sua segunda filha, Rosinha, foi adotada por ele e por sua mulher, Helena Cavalcanti. O filme enfrenta esta questão com coragem, mas sem nenhum apelo sensacionalista.

Sertão x Favela
   
   Reprodução de uma das capas de disco de Luis Gonzaga, o rei do baião
Outro aspecto que dá força ao filme é o embate entre pai e filho. Gonzagão era um homem do sertão patriarcal do Nordeste, negro (ou “mulato escuro”), de quase nenhum estudo formal, soldado por dez anos e ligado a políticos conservadores. Sempre se manteve muito próximo dos militares e dos coronéis do Nordeste. Durante a Ditadura Militar (1964-1984), fez shows para as mais diversas patentes das Forças Armadas e para a Arena, partido de sustentação do governo.
Gonzaguinha, por sua vez, cresceu no Morro de São Carlos, favela do Rio de Janeiro, educou-se em colégio interno, fez faculdade (formou-se em Economia, para “ser doutor”, sonho do pai), ligou-se ao Movimento Artístico Universitário (MAU), militou na esquerda e combateu a ditadura com canções de protesto, passeatas e showmícios.
As divergências comportamentais e políticas entre pai e filho também são enfrentadas com equilíbrio pelo filme. Gonzagão detesta a cabeleira e a barba de Luizinho, rapaz de aparência esquálida (ele, como a mãe, que morreu vítima de tuberculose, sofreu com a mesma doença). Gonzaga não esconde seu horror à opção do filho “por ideias comunistas”. No que é coadjuvado pela mulher, Helena, que nunca aceitou “o bastardo”.
Numa das melhores sequências da vibrante narrativa de Breno Silveira, o jovem Gonzaguinha leva uma surra e tem o violão quebrado pelo pai, indignado com as letras do filho e com as paredes de seu pequeno quarto, cobertas de pôsteres “comunistas”. Noutra, Gonzagão toca sua sanfona e canta para militares fardados, que aparecem em vistoso primeiro plano.

Racismo bastardo
O racismo, tema que marcou a vida de Gonzagão, é explorado pelo filme com sutileza e força. Tudo começa em sua adolescência nordestina. Filho do sanfoneiro Januário e de Santana, o rapazinho (interpretado por Land Vieira) apaixona-se por Nazinha (Cecília Dassi), filha do Coronel Raimundo (Domingos Montagner).
Ele, Gonzaga, é preto, pobre, sem instrução. Ela é branca, de olhos claros, rica e instruída. O pai jogará tudo isto na cara do sertanejo. Bêbado, o jovem Gonzaga pensará em matar, com uma peixeira, o coronel. Seu plano etílico, porém, não chegará a termo devido à habilidade do Coronel. Mas a história irá bater no ouvido de Santana e Januário. O rapaz ganhará surra humilhante. E, por isto, fugirá de casa, rumo ao Crato, no Ceará. Ali se alistará no Exército, instituição em que fará carreira por quase 10 anos. “Ele será” – brinca Breno Silveira – “uma espécie de Chaplin na guerra”. E por quê? “Porque foi convocado para quatro conflitos e não disparou um tiro sequer. E pelas razões mais prosaicas”. A mais divertida delas, presente no filme, tem a ver com um monte de fezes.
O racismo de Helena (Roberta Gualda) também se fará sentir. E de forma contraditória. Branca e instruída, ela se sentirá sempre superior ao marido negro. E apta a gerir a vida dele. Ao adotar uma filha, buscará menina de pele alva, cabelos lisos e claros (ao contrário dos cabelos crespos de Gonzagão. E de Gonzaguinha).
Filho de Odaléia Guedes (Nanda Costa), moça de dancing club (aquelas que marcavam a vez de seu par numa cartela), Gonzaguinha ficou órfão aos dois anos. Foi criado pelos padrinhos Dina (Sílvia Buarque), branca e de origem portuguesa, e Xavier (Luciano Quirino), negro do morro e tocador de violão. Para a mãe e para Dina, Gonzaguinha compôs músicas emocionantes. Com a Perna no Mundo (para Dina) ganha espaço nobre no filme. Odaléia – Noites Brasileiras, perfil musical de sua mãe, pode ser ouvida no disco Recado (1978).

   
   Cena do filme Gonzaga – De Pai Pra Filho, de Breno Silveira - Foto: Reprodução
Música e afeto
Da trajetória de Gonzagão e Gonzaguinha, o que mais interessa a Breno Silveira é o plano afetivo. Apaixonado por relações familiares (que explorou em Dois filhos de Francisco, À Beira do Caminho e agora em Gonzaga de Pai Pra Filho) ele vai fundo na luta de Luizinho em busca do afeto do pai. Criado no morro, por padrinhos (apoiados pelo dinheiro que Gonzaga lhes enviava), o menino se sentia rejeitado.
Na certidão de nascimento (e, depois, na carteira de identidade) estava escrito que era filho de Luiz Gonzaga do Nascimento, um artista que chegou a ser o maior vendedor de discos da gravadora RCA Victor-Brasil. Mas o Júnior vivia correndo pela favela, como um moleque pobre qualquer. Quando a adolescência chegou e sua rebeldia se fez mais forte, o pai o matriculou num colégio interno, “o melhor do Rio de Janeiro”. As carências afetivas do filho só aumentavam. A rejeição da madrasta Helena serviu para agravar a situação.
No começo dos anos de 1980, já recordista de venda de discos por causa do estouro de Explode Coração, Gonzaguinha foi convocado – pela própria Helena – a dar uma força ao pai, que vivia mais um momento de ostracismo e dificuldades financeiras.
Gonzaga, que urbanizara ritmos nordestinos e criara (com ajuda de Humberto Teixeira) o baião, conheceu a glória nos anos de 1940 e 1950. Com o triunfo da Bossa-Nova, caiu no ostracismo. O filme registra isto com delicada sutileza. Ouve-se, ao fundo, Manhã de Carnaval, em versão instrumental. E o Rei do Baião deixa de vender discos. Vai, então, fazer shows em perdidas cidades do interior nordestino.
Nos anos de 1970, Gilberto Gil, ao regressar do exílio, deu declaração que calou fundo na alma da juventude universitária brasileira. Disse que amava Gonzaga, que ele era um das mais significativas raízes de nossa música popular. Caetano Veloso, por sua vez, transformara Asa Branca em lamento arrebatador e comovente.
Nos anos de 1980, já sem a força da juventude, Gonzagão começava a enfrentar seu crepúsculo. O filho foi visitá-lo em Exu, Pernambuco, munido de um gravador. Queria “conhecer” o pai, que investira dinheiro em sua criação, mas lhe negara afeto e companhia. A convivência entre os dois, a partir dali, se estreitaria. E o sucesso, em dupla, chegaria com a megaturnê de Vida de Viajante, quando os dois mobilizaram multidões em ginásios e praças públicas. E frequentaram as paradas de sucesso, pela primeira vez juntos.
A morte de Gonzagão, em agosto de 1989, arremessou Gonzaguinha em um delirante velório. Políticos e fãs de várias cidades disputavam o direito de velar o rei do Baião. Gonzaga Jr. aceitou o estranho cortejo que somava oportunismo político e idolatria. Enterrou o pai com lágrimas nos olhos.
O que ninguém esperava era que no dia 29 de abril, apenas um ano e oito meses depois da passagem de Gonzagão, o filho morresse num estúpido acidente de carro, no Paraná, quando regressava de um show, rumo a BH, cidade que adotara.
Fonte: Brasil de Fato
Postado por Cristina Rastafári

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