Bebês também podem sofrer derrames, veja história de superação: Pequenos sobreviventes

Crianças com poucas horas e anos de vida também podem sofrer derrames. O diagnóstico é complicado, mas o tratamento e o monitoramento permitem que elas superem o drama do AVC

 (Arquivo pessoal)

Quando Arthur Bruno Meneghetti nasceu, sua pele estava arroxeada. A não ser pela mão que abria e fechava repetidamente, o letárgico bebê quase não se movimentava. Seus olhos se reviravam de vez em quando. A mãe, Paula Meneghetti, ficou preocupada. “Comentei com a enfermeira que achava que ele tinha nascido com tique”, relembra a auxiliar administrativa, de 37 anos. Paula falou também com um pediatra, mas o médico não identificou nenhum problema no recém-nascido. Mãe e filho foram para casa, mas o comportamento incomum continuava. Uma consulta com uma neuropediatra revelou o diagnóstico correto: Arthur havia tido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) no momento em que veio ao mundo e sofria com convulsões constantes desde então.

Três anos e oito meses após o episódio mais desesperador de sua curta vida, Arthur está bem. Para garantir que não tenha problemas futuros, ele faz avaliações periódicas com fisioterapeutas e fonoaudiólogos. O menino tomou anticonvulsivante para eliminar o risco de novas convulsões (a medicação foi suspensa há um ano). 

Ele teve um AVC do tipo isquêmico, em que os vasos sanguíneos ficam obstruídos e deixam de irrigar os tecidos cerebrais. O derrame afetou o lado esquerdo do cérebro do garoto, mas, até agora, Arthur não apresentou nenhuma limitação. “Ele anda, fala, brinca, escuta e enxerga perfeitamente”, enumera a mãe. Um quadro bem diferente do que foi previsto pelos especialistas procurados na época. “A primeira consulta foi horrível. O médico me disse que ele nunca seria normal, que não andaria nunca”, desabafa. “Só me preocupo quando ele começar a estudar”, acrescenta.
Não é qualquer profissional que está apto a detectar um problema tão fora da realidade infantil quanto o derrame. Geralmente associado a maus hábitos característicos dos adultos, como sedentarismo, alcoolismo ou tabagismo, o AVC em crianças ainda é um tema pouco discutido e estudado. Os motivos que levaram o pequeno Arthur a passar por isso, por exemplo, ainda não foram descobertos, mas provavelmente o fator genético teve um papel importante nessa história. 
Rubens Gagliardi, vice-presidente da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), explica que a hereditariedade é um dos principais desencadeadores do quadro. Com tão pouca idade, outras razões que levam ao derrame são sutis: cardiopatias, trombofilias (problemas na coagulação sanguínea), artropatias (doença nas articulações causada por infecção), varicela e anemia falciforme são alguns exemplos.
Sandra Ávalos, 43 anos, nem sabia que uma criança poderia sofrer um derrame, ainda mais nos primeiros minutos de vida. A técnica em marketing só descobriu isso quando teve Ana Beatriz, há sete anos. “Ela nasceu com uma cardiopatia gravíssima”, completa. Segundo a mãe, a menina tinha quatro veias “invertidas” no coração: o sangue, em vez de ser bombeado para o órgão, ia direto para o pulmão. As convulsões só foram descobertas dias depois do nascimento, depois de uma tomografia. Sandra correu para a internet, mas não encontrou muitas informações sobre a condição da filha. “Não achei quase nada falando sobre AVC em crianças”, desabafa. “Fiquei mais preocupada ainda, porque o dela foi do tipo hemorrágico, que é o mais perigoso.”
A veia rompida deixou uma cicatriz no cérebro da garota, que ficou com dificuldade para se expressar. “O derrame afetou mais a fala porque o AVC dela foi no lado esquerdo (do cérebro)”, explica. Assim como outras mães de crianças que passaram por um derrame, Sandra foi desenganada por muitos médicos. “Ouvi que ela não falaria uma palavra sequer”, relembra a mãe. A opinião dos pessimistas, contudo, não abalou a vontade de ver a filha melhor.
“Hoje ela fala frases curtas. Não é uma coisa que se cura de uma hora para outra.” As poucas, mas valorizadíssimas, palavras que a menina diz são resultado de sessões constantes de fisioterapia, idas ao fonoaudiólogo e terapia, tanto para a mãe quanto para a filha.
Se não fosse a insistência de Sandra em descobrir por que a filha recém-nascida não chorava, só dormia, talvez, Ana Beatriz não estivesse viva. “Os médicos me falavam que ela estava cansada, mas que o comportamento era normal”, descreve Sandra. Antes de a cardiopatia da menina ser descoberta, ela recebeu diversos outros diagnósticos, de meningite a hipertensão pulmonar. Mas Sandra não guarda ressentimentos. Prefere comemorar as pequenas conquistas da filha, que evolui um pouco mais a cada dia. “Ela vai ao banheiro sozinha e já consegue pintar dentro das figuras, sem colorir o papel inteiro”, orgulha-se. “São progressos que parecem poucos, mas que para a gente são grandiosos.”


Fonte: Correio Brasiliense
Postado por Cristina Rastafári 

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