Assunção (AE) - O Senado paraguaio cassou ontem o mandato do presidente Fernando Lugo, após negar um pedido do mandatário, que solicitou 18 dias para a preparação dos argumentos de defesa do julgamento político iniciado na manhã de ontem, por suposto mau desempenho de suas funções. Cerca de cinco mil manifestantes protestavam em frente ao Congresso do Paraguai contra a votação do impeachment de Lugo. O Senado aprovou a validade das cinco acusações contra Lugo, com 39 votos a favor e apenas quatro contra. Os advogados do mandatário se retiraram do plenário, irritados com o voto. O vice-presidente Federico Franco assumirá a presidência do Paraguai até as eleições, que acontecerão em nove meses.
mônica matiauda
Lugo afirma que acatará decisão política, mas vai à Justiça para garantir legitimidade do mandato
A acusação apresentada contra Lugo tem cinco pontos: a matança de 17 pessoas (11 camponeses sem-terra e seis policiais) no confronto de Curuguaty, que aconteceu na primeira metade de junho; a crise dos camponeses sem-terra do Paraguai no departamento (Estado) de Ñacunday; a insegurança no Paraguai; o uso dos quartéis das Forças Armadas para atividades políticas; e a assinatura do protocolo de Ushuaia II, que permite à União de Nações Sul-americanas (Unasul) intervir no Paraguai em caso de risco para a democracia.
Logo após a votação no Senado, ocorreram confrontos entre os manifestantes e a polícia na Praça de Armas, centro da capital paraguaia onde fica o Congresso.
"Fizemos um pedido perante a Suprema Corte de Justiça solicitando a nulidade desse processo de julgamento porque duas horas são pouco tempo para reunir documentação espalhada por todas as instituições públicas para a elaboração da defesa, mas não houve resposta rápida do tribunal", disse mais cedo Enrique García, procurador geral da República e um dos seis advogados que defenderam Lugo.
O advogado Enrique García foi o primeiro integrante da equipe de defesa de Lugo a participar da sessão do Senado que julgou o chefe de Estado por suposto mal desempenho de suas funções durante um confronto envolvendo trabalhadores sem-terra na sexta-feira da semana passada.
Lugo decidiu acompanhar o julgamento pela televisão, no palácio do governo. Na quinta-feira, a Câmara dos Deputados aprovou o impeachment do presidente. Para que a medida fosse aprovada no Senado, eram necessários dois terços dos votos dos 45 senadores do país.
Milhares de manifestantes se reuniram na Praça das Armas, localizada na frente do Congresso, para manifestar seu apoio a Lugo e protestar contra o julgamento político. Os participantes da manifestação gritavam "o povo, unido, jamais será vencido!" e carregavam dezenas de bandeiras do Paraguai e faixas da coalizão de esquerda Frente Gazú, além de cartazes nos quais se lia "até a vitória, Pátria ou morte".
Várias instituições privadas pediram aos cidadãos que não participassem das manifestações. "Preocupa-nos muito que haja cidadãos convocando o povo a se manifestar, pretendendo fazer crer com tal irresponsabilidade que estas manifestações serão pacíficas e não resultarão em atos de violência, com o consequente risco de perda de vidas humanas", declarou em comunicado a União Industrial Paraguaia.
Impeachment pode levar a sanção política
Rio (AE) - A presidenta brasileira Dilma Rousseff sinalizou ontem, quando o pedido de impeachment ainda estava em fase de votação no Senado paraguaio, que um processo sumário de cassação do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, representando ameaça de ruptura da ordem democrática, violação da ordem constitucional ou qualquer situação que ponha em risco o legítimo exercício do poder e a vigência dos valores e princípios democráticos, pode levar a uma sanção ao país. O que pode ter como consequências o desligamento do Paraguai de organismos como Unasul e do Mercado Comum do Sul do continente americano (Mercosul).
Durante entrevista coletiva antes de encerrar a conferencia global do meio ambiente, Rio+20, Dilma foi questionada se o processo de impeachment de Lugo pode levar à expulsão do Paraguai desses organismos por não respeitar as cláusulas democráticas. A presidenta respondeu que não queria raciocinar sob hipótese, mas emendou: "posso dizer o que está previsto no protocolo, que é a não participação nos órgãos multilaterais".
Para ela, não contribui, neste momento, a discussão de uma situação que ainda não ocorreu e que pode ser visto como uma forma de ameaça.
Mas advertiu que "a atitude dos 12 chanceleres e dos 12 países representam uma atitude de muito respeito à soberania do Paraguai, mas é também uma atitude de muito respeito pela democracia". E avisou: "desta situação, asseguro que sai uma consequência".
Dilma lembrou: "nós que passamos por um processo muito doloroso de golpe, passamos por processo de retomada da democracia. Dar valor a ela é algo muito importante, mostra maturidade da América Latina".
Lugo diz que acatará decisão
Assunção (AE) - O ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo, afirmou na noite desta sexta-feira que acatará a destituição imposta pelo Senado e que enfrentará na Justiça as investigações relativas ao impeachment. Tranquilo e aparentando serenidade, Lugo rechaçou o julgamento rápido feito pelo Senado e disse que a democracia paraguaia ficou "ferida" porque seus princípios fundamentais foram "transgredidos".
"Nesta noite, eu saio pela porta maior da Pátria", afirmou. "Esta é a porta do coração dos meus compatriotas", afirmou Lugo. Em tempo recorde e com maioria esmagadora, o Senado destituiu Lugo em meio a protestos de partidários e simpatizantes do mandatário e críticas da comunidade internacional sobre irregularidades no procedimento.
Lugo ficou quase quatro anos no poder, apesar das críticas frequentes do seus detratores e de sofrer um câncer linfático, do qual se tratou em São Paulo, no Brasil.
Fonte: Tribuna do Norte
Postado por Cristina Rastafári
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