A Síndrome de Don Juan - I

Artigo publicado na tribuna do norte em: 15 de Agosto de 2010 às 00:00
Dr. Hilton Marcos Villas Boas – Médico

No momento contemporâneo, na verdade estamos mais acostumados a conviver com expressões do tipo, sai com ele (a), fiquei com ele (a) e outros, termos que de uma maneira geral “significam a mesma coisa”, que na verdade são totalmente antagônicos.       O termo Don Juan, podemos dizer que é uma expressão praticamente não usada em nosso tempo, o momento mais próximo que podemos lembrar em que tal expressão voltou à sena, creio que foi quando do lançamento do filme (e que filme), Don Juan de Marco, escrito e dirigido por Jeremy Leven. Onde o escritor aproveita o lendário personagem da literatura, Don Juan, o qual tinha como atributos a fama de conquistador, e ao mesmo tempo simbolizava a sexualidade. Paralelamente outro sinônimo na literatura, menos expressivo, porem que pode perfeitamente ser equiparado ao termo Don Juan, e a figura do eterno sedutor, conhecido como “Casanova”, descrito na autobiografia do veneziano, Giovanni Jacopo Casanova.

No entanto na literatura, a figura do eterno sedutor, permanece associada de forma muito enraizada a Don Juan, que é escrito por diferentes autores na literatura mundial (Molière, Byron, Bernard Shaw).  A chamada síndrome de Don Juanismo ou Compulsão por Sedução caracteriza-se por ser um transtorno onde é premente a necessidade do indivíduo, por uma sedução compulsiva, com um envolvimento sexual muito fácil, porém com um frágil envolvimento emocional, determinando assim relações íntimas, mas pouco duradouras, chegando a certas condições, a possibilidade de até inexistirem. Os indivíduos portadores dessa síndrome, além de serem extremamente sedutores, normalmente buscam para sua conquista, pessoas que tem o rotulo de “praticamente impossíveis a sua conquista”, ou “proibidas, inatingíveis”, de serem alcançadas (casada, freira, irmã ou filha de amigo, etc.). O alvo do Don Juan, em geral facilmente se apaixona pelo mesmo, no entanto, o indivíduo portador da síndrome, logo se apercebe que “a vitima” esta envolvida por ele, e daí o relacionamento passa a não ter mais graça e, por fim, o portador da síndrome acaba abandonando a pessoa.  Tal indivíduo uma vez conseguido o seu objetivo, ou seja, a conquista “impossível”, rapidamente se desapega ao objeto de conquista, porque na verdade possuem apenas uma atração fugaz, que a partir da conquista do outro, e como se não existisse, mas prazer, emoção, passando a relação a ser sem graça, enjoativa, promovendo um desaparecimento daquele ímpeto inicial.
Tais indivíduos portadores dessa síndrome possuem uma estrutura de personalidade narcisista, namoradora, escrupulosa, ao mesmo tempo amada e odiada, usando de todos os subterfúgios no intuito de fazer valer a conquista de uma mulher. Portanto a expressão “Don Juanismo” é cunhada, a partir do mito de que este jovem conquistador e sedutor, após a conquista de várias mulheres, abandonavam-as.
Descreve-se o Don Juan, com a personalidade que necessita seduzir o tempo todo, que aparentemente se enamora da pessoa difícil, mas, uma vez conquistada, a abandona. As pessoas com esse traço não conseguem ficar apegados a uma pessoa determinada, partindo logo em busca de novas conquistas. As pessoas com essas características são os anarquistas do amor (Sapetti), tornando válidos quaisquer meios para conquistar, entretanto, os sentimentos da outra pessoa não são levados em conta.
Geralmente os indivíduos acometidos de tal síndrome, são detentores de uma personalidade fria e insensível para com os sentimentos do próximo, vislumbrando apenas o seu objetivo de maior, que é atender o seu próprio interesse. Desta forma tais indivíduos, são pessoas com características: egoísta, com uma grande sensibilidade à monotonia, intolerantes ao tédio, tendem a buscar comumente estímulos e novidades, são inconstância nos relacionamentos os quais se tornam rapidamente enjoativos. Diante de tais características, a síndrome deve ter um diagnóstico diferencial, com sintomas do transtorno de personalidade, ou na linguagem mais popular conhecido como psicopatia.
Apesar de o Donjuanismo representar um tipo particular de comportamento humano, a sua classificação é estruturada essencialmente nos aspectos que envolvem os valores culturais e morais. Assim sendo não encontramos essa denominação, tanto no CID X como no DSM IV, não significando isso, absolutamente, que indivíduos com essa síndrome deixem de existir.
Um dos aspectos que nos interessam nesta síndrome, é a característica do tipo de conduta sexual da contemporaneidade, ou seja, a inclinação que os indivíduos têm para a liberdade sexual explicita. O que de certa forma favorece ao Don Juanismo atual, uma forte compulsão para sedução, sendo que essa característica não ocorre de forma única e isolada, na personalidade do indivíduo, mas reflete na verdade uma estrutura sócio/comportamental especial.
O Don Juanismo caracteriza-se por personalidade que necessita seduzir o tempo todo, que aparentemente se enamora da pessoa difícil, mas, uma vez conquistada, a abandona. As pessoas com esse traço não conseguem ficar apegados a uma pessoa determinada, partindo logo em busca de novas conquistas. As pessoas com essas características são os anarquistas do amor (Sapetti), tornando válidos quaisquer meios para conquistar, entretanto, os sentimentos da outra pessoa não são levados em conta. Aliás, Foucault enfatiza essa questão ao dizer que Don Juan arrebenta com as duas grandes regras da civilização ocidental, a lei da aliança e a lei do desejo fiel. Até a próxima semana com a conclusão do artigo, e um bom final de semana a todos.
Fonte: Tribuna do Norte
Postado por Cristina Rastafári

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